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17 abril 2020

INDIGNA CASA


Queria poder juntar os cacos do corpo frágil e humano
que somos todos nós.
Queria poder alinhavar tecidos partidos, frágeis órgãos,
frágeis corpos 
de pais, irmãos, avós,
que vão se dissolvendo enquanto a vida vai passando indiferente.

Queria colar os cacos, fundir partículas,
construir um corpo perfeito,
um super corpo capaz de resistir à vida,
de resistir à morte
que teima em se instalar em nós a cada respirar,
como uma bomba a nos dizer
que pode ser agora ou amanhã,
Na próxima curva, na próxima queda,
Em meio ao próximo riso ou da maior tristeza.

E ela vai nos roubando de nós, amaciando as resistências
desse frágil corpo que somos.
Mina nossos ossos, faz falhar o coração,
murcha a flor da nossa pele,
tira a cor dos cabelos, torna opaca a nossa visão.
Frágil corpo, para almas tão sedentas de vida...

E o corpo (mesmo que ainda são) vai se partindo,
se rasgando, se dilacerando,
Ao ver cair, sem piedade,
Um a um,
Os corpos de nossos pais, irmãos, avós,
Amigos, filhos, amantes...

Pobre corpo humano!
Casa indigna dessa alma sedenta que Deus nos deu.
Corpo dilacerado na dor de não poder juntar, alinhavar,
fundir, reviver, enfim,
Os corpos que de tão frágeis não comportam
a alma daqueles que amamos.

Por Silvio Vinhal em O Tempo e o Jardim, ArtContato editora, Brasília, 2013

30 setembro 2011

6 Horas para Viver


A jornada de trabalho de oito horas diárias na indústria foi instituída no Brasil pelo Presidente Getúlio Vargas, em 1932, e portanto caminha pra completar 80 anos em 2012. Antes dela, os trabalhadores eram submetidos a jornadas exaustivas de 10 a 12 horas, podendo chegar até ao absurdo de 17 horas diárias.

Há 125 anos, em Chicago, a palavra de ordem era: “8 horas de trabalho, 8 horas de sono e 8 horas de lazer.” Esse conceito foi mais tarde conquistado e ganhou espaço no planejamento, em diversas instâncias. Parecia razoável.

Após todo esse tempo transcorrido e mediante o crescimento das cidades, o aumento da população e às dificuldades de deslocamento, de convivência em família e de agregar à vida outras atividades que não sejam “sono” e “lazer” levam-me a pensar que precisamos lutar por turnos menores, de 6 horas.

2 turnos de 6 horas comporiam o novo “horário comercial” ou “horário da indústria” dobrando as vagas de emprego e, com certeza, também a produtividade, porque o que vemos hoje, em toda parte, são operários cansados, privados do sono e da convivência familiar, impedidos de estudar ou alcançar algum lazer.

As 8 horas de sono são um fato para quase todos os humanos. Alguns privilegiados conseguem dormir 6 ou até mesmo 4 horas e, ainda assim, sentir-se inteiros no dia seguinte. Outros, são obrigados a dormir pouco, mesmo necessitando dormir mais, e engrossam as fileiras daqueles que moram distante e pegam cedo no batente. Levam para o trabalho o seu cansaço e sua desesperança, aumentando os índices de acidentes no trabalho e mortes no trânsito.

As 8 horas de lazer sempre foram pura balela. Nas tais “horas de lazer” devemos descontar pelo menos 2 horas para as refeições, higiene pessoal e, no mínimo, 2 horas de deslocamento diário. Aí já se foi a metade do tempo. A outra metade seria todo o tempo que nos restaria para nos deslocarmos até uma escola, estudar, conviver com a família e com amigos e ter algum lazer. E, claro, ao escolher uma dessas atividades as outras estariam automaticamente excluídas. Esse é o mundo em que somos obrigados a viver.

Com turnos de 6 horas um casal poderia, por exemplo, se organizar para que pelo menos um dos dois estivesse em casa com os filhos em um dos períodos do dia. Quem dera pudéssemos construir, assim, uma sociedade com mais valores e mais afeto. Em cidades maiores o comercio e a indústria poderia funcionar em regime de 3 ou 4 turnos, aumentando as vagas de emprego, o período de disponibilidade para as compras e distribuindo melhor o fluxo de pessoas em deslocamento nos horários de pico.

Diminuir o turno para 6 horas equivaleria a um aumento salarial de 25%, e mesmo se o valor dos salários fosse reduzido proporcionalmente em 25%, as vantagens decorrentes da mudança seriam muito maiores, considerando a qualidade de vida do trabalhador e das suas famílias. O aumento do rendimento no trabalho e na escola, e o aumento da possibilidade de mais pessoas retomarem seus projetos de crescimento pessoal, voltando a estudar.

Um abaixo assinado poderia tornar isso uma lei em nosso país, e duvido que alguém votasse contra, ou quisesse se abster, pelo menos nas grandes massas trabalhadoras, onde a mudança causaria o maior impacto positivo.

Turnos de 6 horas, hoje, me parecem uma possibilidade muito justa e atual. Mais do que isso, uma necessidade, um sonho para sonharmos juntos e fazermos acontecer. Um recado aos sindicatos e aos cidadãos antenados. Ajudem a propagar essa idéia.

Silvio Vinhal

12 outubro 2009

A MÁGICA

Foto: Otavio Bergonsi

Crochê

Silvio Vinhal

O tempo teceu anéis de conchas.

Bege aqui, branco acolá,
como um crochê de cálcio e paciência
fazendo barra nas horas
que o vai e vem das ondas marcou como relógio.

Minha avó também tecia conchas no sofá da sala.
Passávamos sem ver a mágica que brotava de suas mãos,
barulhentos, como ondas impacientes.
Ela, uma grande rocha onde quebrávamos sempre,
indicava nossa praia,
nosso ponto de origem e de chegada.

25 setembro 2009

GRAÇAS A DEUS, A LAGOA ESTÁ AÍ

Na minha infância, quase adolescência já, de tanto ouvir as “Piadas do Barnabé” numa vitrolinha lá de casa, criamos uma historinha familiar muito divertida e reconfortante. A piada era mais ou menos a seguinte:

Em uma cidade do interior havia dois amigos muito chegados. Um deles religioso e muito temente a Deus tinha por hábito expressar em voz alta, sempre, antes de fazer ou manifestar qualquer coisa:

_ Se Deus quiser eu vou conseguir fazer tal coisa, se Deus quiser eu supero tal dificuldade...

O outro amigo era bem mais cético, abusado até, e achava muita graça de tudo. Vivia dizendo que o compadre era muito carola, e que Deus devia ter mais o que fazer do que ficar querendo coisas para ele a todo instante. Que deixasse Deus em paz.

O amigo religioso refutava dizendo que sabia história de pessoas que não temiam a Deus e, por castigo, foram transformadas em sapo durante muitos anos, tendo que ficar confinadas numa lagoa que havia ali mesmo na cidade.

O cético prosseguia blasfemando, ignorando os conselhos do amigo devoto, até que Deus de fato se indignou e resolveu transformá-lo em um sapo enorme, verde e rabugento, destinado a penar nos alagados daquela lagoa por um bom tempo.

Depois que se cumpriu finalmente o tal castigo e Deus viu-se vingado, devolveu ao incauto a sua forma de gente. Quando os amigos se reencontraram, no entanto, o devoto percebeu que o blasfemador continuava a fazer afirmações sem manifestar sua fé em Deus e sem colocar suas ações sob a guarda do Altíssimo.

_ Cumpadi, cumpadi... Passe a dizer “Se Deus quiser...” Será possível que ainda não aprendeu a lição?

Ao que o amigo turrão respondia:

_ Olha cumpadi, se Deus quiser eu vou, mas se Ele não quiser, a lagoa ta ai!

Nos tempos do Bairro Ipiranga, de vida humilde e difícil, nos tempos em que minha família era muito pobre – e mal sabia - porque éramos, também, muito pobres em cultura e conhecimento – morávamos perto da Lagoa do Ipiranga, lá em Ituiutaba-MG. A nossa piadinha particular era que, quando estávamos frente a algum desafio - daqueles que dava medo encarar - dizíamos, entre nós, pra nos assegurar que pior do que estava, dificilmente poderia ficar, e que sempre teríamos o apoio da nossa família e nossa casinha pra morar:

_ Se Deus quiser eu vou, se Ele não quiser, a lagoa está aí!

Felizmente, Deus quis. Embora a lagoa, e a nossa velha e pobre casinha, continuem lá.

06 fevereiro 2008

Não é Fácil Amar

Imagem de Tiago de Sousa Lopes


É engraçado como ainda nos sentimos sós e distantes das pessoas que amamos, mesmo tendo ao nosso alcance tantos recursos tecnológicos. O mundo se expandiu tanto que levou as pessoas do nosso convívio. Fragmentou as famílias e nos afastou dos amigos de infância, de colégio, de juventude, de faculdade.
Mesmo com tantos recursos à mão, seja através da telefonia ou da internet, às vezes bate uma saudade grande demais, uma vontade de outros tempos, de estar junto daqueles que são importantes em nossas vidas. É melancólico o tema desse blog de hoje. Estou melancólico.

Foram compridos demais esses dias de carnaval. Cansei de não encontrar ninguém conhecido nos milhares de rostos que pupulavam na tela da tv, nas brincadeiras de carnaval pelo Brasil. Não que eu esperasse encontrar alguém conhecido ali, mas justamente pelo anonimato daquela multidão, indiferente para mim, e ao mesmo tempo capaz de provocar esse estranhamento e essa saudade melancólica.

Eu sinto muita saudade de pessoas que passaram pela minha vida, e que desapareceram como que por mágica. Pessoas que não deixaram nenhum rastro, nenhum contato, como se fossem personagens (figurantes) de uma peça de teatro, que saíram de cena de vez depois do primeiro ato, pra ser figurantes em outros papéis, perdendo-se e se reinventando na pequenez e no distanciamento de seus respectivos papéis. Importantes ou não, desapareceram pra sempre na sombra do tempo, na coxia dos anos pelos quais perpassei.

Minha família também está distante, e no mais profundo do meu íntimo eu sofro todos os dias a angústia de saber que talvez nunca mais possamos conviver como já foi um dia, no passado. Agora é preciso que eu me contente com encontros fortuitos, em finais de semana prolongados, natais, anos novos, escassos momentos onde infelizmente nem sempre é possível desfrutar da intimidade de cada um, mesmo que seja por alguns minutos.

Lutamos muito nas batalhas de cada dia. Com sucesso ou fracasso, nos distanciamos das pessoas que amamos. Seria esse o amargo preço que a vida nos cobra? O que é possível fazer então para minimizar esse distanciamento a que nos obrigamos? Vale mesmo a pena?

Só sei que o crescimento nos propõe desafios difíceis, e que, apesar de nos afastarmos do convívio daqueles que amamos, é graças a esses desafios que enfrentamos que passamos a ser por eles admirados e, talvez, ainda mais amados. É preciso recuperar a fórmula do carinho, do afeto. É preciso acender a fogueira que nos reúne, mesmo que esporadicamente, e cuidar para que ela nunca se apague.

Eu tenho medo que as notícias ruins sejam mais rápidas que a minha capacidade de mobilização para ir ao encontro dos meus amados. Acho que essa angústia vai me acompanhar pra sempre, ainda que eu finja não ligar e tente focar meu pensamento – e meu sentimento – em outro lugar.

Tenho medo do desabamento lento e gradual da nossa estrutura humana, frágil, perecível. Queria poder tocar a trombeta do alerta e conter todo o tempo possível, antes que qualquer fatalidade se instale, só pra curtir um pouco mais os abraços, os sorrisos, o carinho e o sentimento todo oculto atrás dos olhares, dos gestos, transmutados em comidas, em doces, em presentes, em telefonemas, e-mails, cartas...

Conter o tempo, pra conter (em mim, em nós) todo o sentimento.
Amar, definitivamente, não é algo fácil.

Melancolia, Edvar Munch, 1891

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Saudade, s. f., Vocábulo considerado sem equivalente noutras línguas e que exprime multiplicidade de sentimentos, sobretudo a melancolia causada pela lembrança do bem do qual se está privado. Pesar, mágoa causada pela ausência de alguém ou de objecto querido. Pesar, desgosto, tristura emanados de alguma recordação alegre ou magoada.