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20 julho 2011

A Amizade

Silvio Vinhal

A amizade, para mim, é como um amálgama que junta todas as outras coisas. Não acredito em relação entre seres vivos, humanos pelo menos, se não for por meio dela. Não sei se posso dizer que tenho muitos amigos, mas tenho amigos muito valiosos. Não importam em quantidade, mas na qualidade de seres humanos que possuem.

Eu talvez não seja para eles um amigo muito bom. Não gosto muito de telefone, sou desligado para datas de aniversário, esqueço nomes com facilidade, e acabo me dedicando tanto ao trabalho que, às vezes, me torno quase antissocial.

No entanto, não esqueço dos meus amigos. Às vezes digo que gostaria que no fim dos tempos, de alguma forma, fosse possível que as pessoas que amamos vissem, de uma forma mais concreta, o quanto as amamos.

Disponibilizo para os amigos uma imensa conta no banco da minha tolerância, do meu carinho, da minha atenção, do meu amor. Encaro até mesmo alguns vacilos, pisadas de bola ou pequenas “traições”. Acredito nas voltas, sou capaz de perdoar verdadeiramente. Procuro sempre ter tempo, até mesmo quando ter tempo significa “tolerar” alguns abusos.

Sinto uma saudade quase visceral dos amigos que desapareceram no tempo. As vezes me pego pensando se me esqueceram, ou onde foi que se perderam, já que hoje todo mundo está ao alcance de alguns cliques. A internet está aí e é capaz de suprir muito da saudade, da distância, do tempo passado longe. Então, me pego pensando se aqueles que sumiram simplesmente me esqueceram, morreram ou se vivem num mundo onde a internet ainda não faz muito sentido.

Saudade visceral que aumenta, quanto mais era próxima a amizade. Cadê esse povo, meu Deus? Às vezes fico com a impressão de que eram atores em um ato da minha vida, e que sumiram porque tiveram que se revestir de outros personagens nos atos subsequentes. Uma idéia maluca que já imaginei até transformar em peça de teatro.

Minha amizade por meus velhos e novos amigos hoje está, sobretudo, na rede. Não conhece fronteiras ou línguas. Aos poucos vou reunindo, descobrindo, reagrupando amigos de épocas e lugares diferentes, e todos são essenciais para mim. Cada um com sua própria importância na forma como me ajudaram a ver o mundo, a amar, a sentir-me sempre e sempre, amparado e amado.

Não posso citar nomes sem correr o risco de esquecer alguém, no entanto, eles (os nomes) fervilham na minha cabeça enquanto escrevo, junto com os rostos e as cenas de algumas lembranças que ficaram preservadas em minha memória.

Peço a Deus que preserve cada um deles, que nos propicie novos encontros pela vida, ainda que seja para falar dos filhos e netos, para falar de dores e perdas, de medos e mazelas. Sobretudo, que seja para viver e para falar de quanto a vida é bela, porque nos sentimos seguros nos braços (ou no alcance – ainda que via internet) do carinho dos companheiros que escolhemos para compartilhar a vida.


27 junho 2011

Ética Etílica - Ou como Rachar a Conta do Boteco

Quando saímos com amigos o que se espera é diversão, farra, enfim, o aproveitamento integral do momento de descontração. Faz parte da amizade evitar que nossas ações sejam o estopim de discussões ou aborrecimentos que causem algum desconforto ou constrangimento pra quem quer que seja. Rachar a conta no final da noite é sempre um momento tenso, pois cada pessoa se comporta de uma maneira diferente, e alguns comportamentos podem ser interpretados como esperteza ou até mesmo superproteção.

Já ouvi histórias de pessoas que ficavam sempre na mesa até o final, e faziam questão de fazer as contas, conferir tudo, fazer os acertos com quem saísse mais cedo e fechar o pagamento final. A esperteza era que faziam as contas sempre excluindo a sua parte, como se cobrassem uma “quota” pelos serviços prestados. Na eventualidade de sobrar algum troco, ainda podiam levar algum para casa.

Na escala oposta, talvez, esteja aquele que, superprotetor, paga a conta integralmente. Geralmente isso é comum em encontros de caráter mais familiar e, mais raramente, em encontros de trabalho, onde quem paga a rodada é o chefe. Esse comportamento pode gerar em alguns um sentimento de humilhação ou de dependência, embora às vezes seja bom, quando estamos do lado que é beneficiado. A verdade é que está em alta a divisão da conta em parcelas iguais para todos da mesa e, geralmente, é essa a forma mais justa, rápida e usual.

Não é justa quando o consumo é muito desigual, por exemplo, quando um lado da mesa toma Whisky e o outro refrigerante. Ou quando um lado pede pratos caros e individuais, não compartilhados pela mesa, e depois espera que a conta seja dividida em partes iguais.

Os bons restaurantes resolvem facilmente essa saia justa com a utilização de comandas individuais – a pedido do cliente. Essa é a forma mais organizada, ética e justa de pagar apenas aquilo que você consumiu. A comanda individual é “politicamente correta” porque, sem discriminar quem não pode consumir mais, tornando o encontro mais democrático, facilita a vida daqueles que precisam sair mais cedo, evitando-se um acerto parcial, e a realização de contas intermináveis e desagradáveis, ainda mais considerando que algumas pessoas já não estarão muito sóbrias.

Sempre que possível, como uma medida coletiva de gentileza, é bom excluir da divisão as pessoas idosas, as crianças e adolescentes, um eventual homenageado, fazendo com que a conta seja dividida entre aqueles que têm rendimento e estão em condição de pagá-la.

Se nada disso evitar que a noite acabe em baixaria, o melhor é que cada um separe da conta o seu próprio consumo, pague individualmente e aprenda, da próxima vez, a pedir a comanda individual, pois os comportamentos em grupo costumam se repetir. Que se preserve a amizade, nesses tempos em que a palavra – ÉTICA - parece ter sido esquecida por muitos.

22 junho 2011

Meio frio, meio quente

Costumam dizer que a internet é um meio frio. Não concordo. Em meus pouco mais de 11 anos de internet, posso dizer que ela não tem nada de “frio”. Graças à rede pude fazer novos amigos em lugares distantes, alguns onde eu jamais havia ido, e outros onde até hoje ainda não pude ir. Porém, em muitos momentos, esses amigos me ajudaram a segurar grandes barras. Torceram por mim em momentos difíceis e comemoraram comigo muitas conquistas. Também pude reviver amizades que haviam se perdido no tempo, mas cuja brasa ainda estava muito acesa, muito viva.

Graças à internet pude manter contato com meus ex-alunos, mesmo após ter me mudado de Uberlândia, onde lecionei. Acompanhei o crescimento deles, sua formatura, e hoje acompanho sua vida profissional. Cheguei a me tornar uma espécie de confidente ou conselheiro de alguns. Cada vez que vejo uma foto dessa galerinha no Orkut, no facebook, ou em outro lugar da rede, me emociono. Torço demais pela felicidade e pela realização de cada um deles! Tornaram-se amigos, e o fato de termos compartilhado um momento de troca de conhecimentos me fez muito bem. Ensinei um pouco do que eu sabia, e aprendi muito com cada um deles, daquilo que se pode aprender com o desabrochar das pessoas.

É um privilégio ver um jovem desabrochar. Bonito demais! E nesse quesito, todos os meus alunos sempre foram maravilhosamente lindos e especiais.

Com a internet, aos poucos, o Brasil se tornou para mim um lugar muito diferente. Hoje posso dizer que tenho amigos em lugares tão diversos, que o mapa do meu país se transformou num lugar pulsante, cheio de significados. Algumas cidades que eu nem sabia existir, se tornaram uma referência no meu imaginário emocional. Ter um amigo, em qualquer lugar, significa que um dia você talvez vá lá para conhecê-lo pessoalmente ou, no mínimo, vai querer saber um pouco mais sobre o lugar, porque existe alguém especial para você que reside ali. As barreiras da nação ou da língua sequer foram limitadoras, pois a internet possibilitou manter contato, também, com parentes e amigos que se mudaram para outros países.

Enfim, considero a internet um meio quente, necessário, ferramenta essencial desse mundo cada dia menor. Considero vital estar conectado, e não abro mão de curtir e compartilhar, mesmo de longe, um pouco da história, das emoções e experiências de todas as pessoas que passaram (e ficaram) em minha vida.

29 setembro 2009

HISTORINHAS DO VIOLÃO – PARTE II

Nikula, Silvio Vinhal e Celsinho - Ituiutaba, 1981
Por volta de 1980 eu estava fazendo um tratamento regular para um desvio da coluna, em Goiânia (que acabou sendo resolvido cirurgicamente em 81). Numa dessas andanças pelo centro de Goiânia, de um hospital a outro, passei diante de uma loja de instrumentos musicais e fiquei boquiaberto diante de tanta novidade. Acho que foi a primeira vez na vida que me deparei com uma loja de instrumentos como aquela, com tanta variedade e cada instrumento mais lindo que o outro. Coisa de encher os meus olhos adolescentes, pouco conhecedores do mundo.

Na vitrine, capturando meu olhar de forma inequívoca, estava um violão Di Giorgio de 12 cordas, em aço, com detalhes brancos no corpo do violão (aquela proteção embaixo das cordas para proteger o tampo). Eu fiquei ali estático, meio que fisgado pelo violão, e minha mãe, que me acompanhava, sentiu-se tocada pelo meu desejo – talvez até para me aliviar um pouco aqueles dias tão penosos, em que estávamos descobrindo um problema sério na minha coluna e que ia exigir alguns anos de um tratamento chato e do qual ainda não tínhamos idéia de onde ia dar.

O fato é que o violão era a “réplica” mais próxima do violão do Celsinho, o meu amigo líder da comunidade de jovens, que tinha sido meu ex-professor de religião no Colégio Estadual Central (hoje Israel Pinheiro). Ele tinha um violão de aço de 6 cordas, com os detalhes pretos, que tinha um som maravilhoso. O Celsinho era um ídolo pra mim, acho que só comparável ao que a Xuxa significou para muitos “baixinhos” de gerações seguintes. E ele era meu ídolo por uma razão muito simples. Era o contato mais próximo que eu tinha com uma boa aparelhagem de som e boa música, que eu podia ouvir na casa dele. Mas, ele próprio, cantor na noite e cantor na igreja, ocupava um lugar que na época, eu também queria ocupar. E além de tudo era meu amigo, era acessível, e com certeza era meu inspirador. Aquele violão, na vitrine de Goiânia, representava um meio de chegar um pouquinho mais próximo desse sonho, de ser “pelo menos” igual a ele.

Não sei como minha mãe fez aquela compra. Com certeza dividiu em mil prestações, e passou apuro para pagar, mas eu saí de lá com aquele violão imenso debaixo do braço.


Deise, Celsinho, Nikula e Silvio Vinhal - O Grupo ASAS
Em janeiro de 1981 eu operei a coluna e saí do hospital com um colete de gesso que eu teria de usar por pelo menos um ano. Fiquei em recuperação nos primeiros meses, atrasei minha entrada na escola e penei o ano todo para recuperar minhas notas. Pela primeira vez na vida eu fiquei para recuperação, só em matérias pesadas: Química, Biologia, Física e Matemática, se bem me lembro. Talvez nem tivesse conseguido passar de ano se não tivesse sido pela ajuda providencial da Cristina e da Selma, que foram meus anjos da guarda.

No entanto, apesar de toda essa dificuldade na escola e do colete de gesso que limitava os meus movimentos e me obrigava a usar roupas muito maiores que o meu número, me deixando com uma aparência pra lá de estranha, eu me inscrevi no Festival de Férias da Música Popular de Ituiutaba, com o Grupo ASAS, que eu, Celsinho, Nikula e Deise criamos para o evento.

Foi um festival lindo, com muita gente boa. Aquelas melodias e letras ainda povoam minhas melhores memórias até hoje. Eu já estava feliz por me apresentar, e de certa forma dar uma volta por cima em tudo aquilo de “ruim” e de diferente que estava me acontecendo naquele ano. Já estaria feliz se tivesse ficado entre os classificados, mas fomos os vencedores, com a música Retratos. Lembro-me do pulo imenso que dei quando saiu o resultado, com gesso e tudo, e minha coluna ainda em recuperação. Foi o coroamento de um momento que significou muito em minha vida, e também para aquela amizade.

Silvio Vinhal, Celsinho Vilarinho e os violões "quase" gêmeos