07 janeiro 2023

 Incompatibilidade


O espelho à frente dos meus olhos
não reflete mais
o menino que ainda sou.

Os fios brancos dos meus cabelos,
da minha barba,
registram uma dolorosa sinfonia
de caminhos fluídos.

Meu estômago dói
ao digerir esse tempo
que me parece tão curto
e a vida insiste em mostrar
tão intenso.

Minha alma não se enxerga
nesse corpo
e os olhos traem o menino
(que se esconde inconformado)
atrás dessa armadura meio gasta.

Hoje sei que existe vida eterna,
porque os olhos, mesmo num corpo gasto,
revelam que a alma não envelheceu.

Silvio Vinhal em O Tempo e o Jardim, Brasília, 2013, ARTcontato


16 abril 2021

O ROSTO DO TEMPO

Esse rosto que eu chamo tempo, cujos olhos curiosos nos perseguem. E sua face oculta, guardada contra todo mal, moléstia ou crime que só a nós atingem (castigam)

Esse rosto que esconde promessas que nunca se cumprirão e que não obstante nos faz crer sempre e sempre e sempre porque tem o dom

e nos inunda com sua serena utopia. E não é utopia tudo que queremos? Tempo, tempo, tempo, seu relógio ilógico sempre a nos cobrar seu preço.

Pagamos com moeda viva: Carne, sangue, suor e lágrimas. As alegrias não, essas, guardamos pra nós. Silvio Vinhal no livro Amaro Amor, 2019 - ARTcontato Ilustração: Richard Kenworthy




27 abril 2020

BUSCA
















Há em mim uma poesia contida,
como o badalar de um sino que não badala.
Como o som de um violino que nos recorda a alma
(mas que não ouvimos).
Lá fora cai a chuva de todos os ciclos,
num ritmo cálido e triste,
mas o coração está feliz e ouve o ritmo
como uma canção de alegria que nos conforta a alma.

Há sorrisos na memória.
Rostos, mãos e gestos. Silhuetas amadas
e esquecidas.
Há um burburinho dizendo
que tudo se confunde numa coisa só.
O amor por cada pessoa é o amor por todas as pessoas.
O corpo é apenas um braço, a mão,
Uma fagulha que de nós se estende rumo a outro ser.
Não importa sexo e cor,
o amor acontece de um ser a outro,
e outro, e outro,
Porém, ser ser promíscuo,
ama um a um e ao mesmo tempo ama a todos,
Porque não há limites para o amor.

O amor não conhece a gravidade, o tempo, o espaço,
Não se acomoda em recipientes vazios.
Pelo contrário, cresce sempre,
como o ar quente que se expande, mais e mais,
Como a água que está sempre fugindo.
(olhando de perto vemos que não é uma fuga)
É um destino, um caminho,
que se contorce nas pedras do rio,
Abre passagem, supera desafios e vai, vai sempre,
em busca de um destino,
Sombrio, desconhecido,
Mas cheio de sonhos que projetamos,
Silhuetas que amamos
e que retornam na sombra que as folhas
desenham no chão.
Há um grito de dor, desejo irrealizado,
frustração!
Mas há um grito mais forte, de júbilo:
O tempo é senhor da razão...
e valerá a pena qualquer amor,
Qualquer amor valerá!

Poema do Livro O Tempo e o Jardim, Silvio Vinhal, Artcontato Editora, 2013
Foto: Cláudio Moreira

22 abril 2020

ARCO DO TEMPO















Abriu-se uma fresta no tempo desde que te conheci,
E por ela penetrou uma luz furta-cor, mágica
Quebrando as resistências do espaço conhecido.
Mais cedo fosse, juraria eu ter ouvido trombetas do apocalipse
Céus se abrindo numa fantasmagoria de luz e movimento.

Tudo está quieto agora,
Nem uma folha se move e essa atmosfera surreal
Prenuncia teus passos em minha direção.
Tua voz é música em meus ouvidos,
Minha alma canta e se deixa balançar
Como uma criança.
E adormece como uma criança no teu colo.

Te conheço de agorinha há pouco,
Nem te vi ainda,
E algo me diz que sempre estivemos juntos
Na pradaria de tempos eternos,
Lá onde nasce o vento pra vir soprar à terra
Aventuras e amores de um dia.
No entanto possuímos todos os dias.

Recosto a cabeça em teu peito e ouço por séculos teu coração.
Como se alguns segundos apenas me quedasse ali.
Todos os relógios quebrados, inúteis,
Incapazes de registrar o tempo para nós.

Não importam milhas, quilômetros,
Entre a minha alma e a tua não passa uma linha.
Meu dedo descreve um arco em tua fronte
E um beijo nos devolve a unidade.

Poema Arco do Tempo, do libro AmaroAmor, Silvio Vinhal, Artcontato Editora, Brasília 2019           
Foto: Cláudio Moreira

17 abril 2020

INDIGNA CASA


Queria poder juntar os cacos do corpo frágil e humano
que somos todos nós.
Queria poder alinhavar tecidos partidos, frágeis órgãos,
frágeis corpos 
de pais, irmãos, avós,
que vão se dissolvendo enquanto a vida vai passando indiferente.

Queria colar os cacos, fundir partículas,
construir um corpo perfeito,
um super corpo capaz de resistir à vida,
de resistir à morte
que teima em se instalar em nós a cada respirar,
como uma bomba a nos dizer
que pode ser agora ou amanhã,
Na próxima curva, na próxima queda,
Em meio ao próximo riso ou da maior tristeza.

E ela vai nos roubando de nós, amaciando as resistências
desse frágil corpo que somos.
Mina nossos ossos, faz falhar o coração,
murcha a flor da nossa pele,
tira a cor dos cabelos, torna opaca a nossa visão.
Frágil corpo, para almas tão sedentas de vida...

E o corpo (mesmo que ainda são) vai se partindo,
se rasgando, se dilacerando,
Ao ver cair, sem piedade,
Um a um,
Os corpos de nossos pais, irmãos, avós,
Amigos, filhos, amantes...

Pobre corpo humano!
Casa indigna dessa alma sedenta que Deus nos deu.
Corpo dilacerado na dor de não poder juntar, alinhavar,
fundir, reviver, enfim,
Os corpos que de tão frágeis não comportam
a alma daqueles que amamos.

Por Silvio Vinhal em O Tempo e o Jardim, ArtContato editora, Brasília, 2013

31 dezembro 2019

DIZEM POR AÍ...

Dizem por aí que é feio ter preconceito, porém, confesso que sou cheio de preconceitos contra pessoas fúteis, intolerantes, que se acham superiores e arrotam arrogância, violência, falta de cultura, de compaixão e de empatia.
Dizem por aí que é melhor apoiar políticos menos corruptos, ainda que desprovidos de inteligência e senso de dever. No entanto, eu penso que políticos devem servir ao povo com humildade e respeito. Que a corrupção é intolerável, seja em quem quer que seja.
Políticos são servidores, empregados do povo. Devem honrar seu cargo. É desejável que sejam inteligentes, no entanto, se forem honestos e tiverem boa índole e caráter, é aceitável.
Dizem por aí que juízes são superiores e inatingíveis em seus atos. No entanto, eu penso que um juiz parcial, tendencioso e corrupto é uma vergonha para a sociedade e não serve para o cargo.
Dizem por aí que o povo deve obedecer à hierarquia social e às leis do país. No entanto, eu penso que o povo é soberano.
Quando a maior parte da população passa fome e não é respeitada em suas necessidades, num país que privilegia os ricos e sobrecarrega cada vez mais os humildes, esse povo deve resistir e questionar as leis e as estruturas hierárquicas que o escravizam e tomam como massa de manobra.
Dizem por aí que o caucasiano é bonito e as outras etnias são arremedo dessa “raça” superior. Eu, no entanto, penso que todas as etnias são lindas e carregam preciosidades que a humanidade sequer começou a desvendar.
Dizem por aí que é feio um homem beijar outro homem, ou uma mulher beijar outra mulher. Eu, porém, acho que feio é fazer apologia às armas e ao crime. Desprezar ou criticar o próximo por suas escolhas afetivas.
Quem ama de verdade ama o ser que mora no outro. O sexo é apenas uma porta. Se não serve para acessar a alma do outro, é apenas impotência e vício.
Dizem por aí que uma religião é melhor que outra. Eu, no entanto, penso que as religiões são apenas estruturas de organização social. São importantes quando formam o pensamento de respeito ao próximo e congregam. São verdades incompletas, que só alcançam plenitude se os seus seguidores observam com retidão o princípio de amar ao próximo como a si mesmos.
Dizem por aí que vestir branco garante um ano de paz, porém, eu penso que para ter paz é preciso se colocar no lugar do outro, e não fazer o mal a ninguém. Sobretudo, não fazer ao outro aquilo que não gostaríamos que alguém fizesse a nós.
Dizem por aí que um ano novo traz renovação e esperanças. Eu, no entanto, penso que um ano novo é apenas um artifício para que os homens “zerem” o marcador e possam reiniciar uma nova contagem de 365 dias.
Quem deixa tudo para amanhã, está apenas perdendo o seu tempo de agradecer e ser feliz – aprendendo a amar aquilo que tem.
Vivemos tempos difíceis. Cada vez mais é preciso buscar valores interiores e permanentes, polir o nosso caráter.
Que possamos dar ao próximo o amor e a paz, a compaixão e a alegria que desejamos para nós! Feliz vida nova!
Silvio Vinhal – Brasília - 31/12/2019 13:16

06 junho 2019

Amaro Amor






O Lançamento do meu segundo livro "Amaro Amor" será no dia 08/06/2019, sábado, com sessão de autógrafos das 17 às 18 horas, durante a 35ª Feira do Livro de Brasília, no Complexo Cultural da República, Estande nº 88, Espaço do Sindicato dos Escritores do DF, que fica em frente à Arena. Espero você! 
Observação: Para aqueles que não estão em Brasília, não puderem vir e quiserem adquirir o livro, contatem-me por mensagem em:

livro.amaroamor@gmail.com  ou  silviovinhal@gmail.com

08 março 2014

30 março 2013

Páscoa = Passagem

foto: Avi Abrams

Um dia eu virei as costas para a dor e para a cruz. Entendi que a “civilização da culpa” era apenas uma forma de coerção mental, de submissão doutrinária. Não nego que tenha tido sua importância, a princípio, na minha formação. Porém, libertei-me de seus jugos gradualmente. Não deixei de ser cristão, só deixei de ter religião. Adotei um Cristo vitorioso, ressuscitado, imerso em luz e energia boas, em alegria e em perdão.
Sempre entendi e usei a Páscoa em seu sentido mais literal de passagem, de purificação (mais mental e espiritual que física). Sempre saí renovado, de fato. Hoje, conversando ao telefone com um amigo ele me disse algo do tipo: “me olhei no espelho e me perdoei em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
Talvez esse seja o verdadeiro ritual que devemos fazer na Páscoa. Nos perdoar, íntima e sinceramente. Entender que não necessitamos dar conta de tudo que se nos apresenta. Ter consciência da nossa ínfima importância diante do universo.
Pra quê carregar tanto ódio, tanta culpa, tanto fardo pesado, tanta inconformidade com nós mesmos? Inconformidade que se reflete nos outros, e se torna ódio e culpa que o tempo inteiro geramos também no outro?
Uma das cerimônias da religião católica que mais gosto é a da quarta-feira de cinzas. Porque “a coisa mais certa de todas as coisas” é que “somos pó e ao pó voltaremos”. Mentalmente, sempre que envaideço-me um pouco por algum elogio (principalmente por autoelogios) faço a imagem mental de estar nu, com a cabeça raspada, deitado sobre a terra numa atitude de entrega. Sou pó, e ao pó eu volto sempre para me lembrar que nada sou.
E ao me permitir ser “nada” me desobrigo dos meus fardos, dos meus pesos, dos meus ódios, das minhas culpas e dos meus medos. Faço assim minha passagem para ser um ser mais leve. O mais próximo, talvez, que eu posso estar desse Jesus ressuscitado que eu ainda trago em mim.
Enquanto nós nos entupimos de chocolate e bacalhau, sem saber muito bem o motivo, uma parte de mim quer urgentemente desejar a todos que eu amo, e a todos que estiverem atentos, que simplesmente passem, transponham, se transfigurem e ressuscitem de si mesmos.
O inimigo – que às vezes somos nós mesmos, assim como a dor, a morte e a tristeza só permanecem em nós enquanto permitimos.
Feliz Páscoa! Feliz Passagem!

Por Silvio Vinhal


26 janeiro 2013

FELICIDADE



Felicidade é gostar daquilo que se tem. É algo presente, não futuro.
É olhar pra você mesmo, pra sua família, seu mundo e dizer: sou feliz por estar aqui, ser a pessoa que sou.
Quando colocamos a felicidade no futuro, de certa forma - perdemos a rédea desse sentimento.
Podemos desejar coisas, claro. Imaginar que determinada coisa pode nos fazer "mais felizes", mas é preciso ser feliz agora, porque o agora é a única coisa concreta que temos.

19 dezembro 2012

A VERDADE SOBRE O FIM DO MUNDO



Pois é, pessoal, o mundo acaba na sexta-feira, dia 21 de dezembro de 2012, e eu queria dizer que foi bom enquanto durou. Quero agradecer a todos que colaboraram para que eu fosse tão feliz, em toda a minha vida. Porque se tem uma coisa que tenho certeza é de que sou um cara feliz, e sempre fui.  “Sou alegre, sou triste, mas sempre fui feliz”, já registrei em letra de música.

Nesses tempos de fim de mundo o que mais me chama a atenção é a perpetuação da nossa rotina, a descrença com que todos nós encaramos a “possibilidade do fim”.

Não acredito que o mundo vá realmente acabar, mas... e se fosse verdade? Será que em ninguém pintou um real sentimento de que – dessa vez – poderia ser verdade? E aí? Ninguém fez nada? Ninguém priorizou um encontro com a(as) pessoa(as) amadas? Ninguém resolveu cometer uma loucura? Realizar um prazer para o qual antes não se tinha coragem?

Sim, continuamos a ir para o trabalho, ainda que o achemos enfadonho, continuamos a manter os nossos relacionamentos, ainda que não estejam tão bem assim e não sejam como imaginamos, continuamos a perder o nosso tempo nos deslocamentos de trânsito cada dia mais caóticos, impossíveis e cruéis.

Conclusão: Não estamos preparados para o fim do mundo, por isso ele não pode ainda acabar. A grande verdade que transparece é que - não estamos preparados para viver.

Continuamos desprezando e mantendo em segundo, terceiro ou quarto plano aquilo que é essencial para o ser humano. O que fazemos, diariamente é desprezar a nós mesmos, vilipendiar os nossos desejos e o nosso próximo.
E a grande verdade que nunca se calou é que o mundo, para qualquer um de nós pode se acabar – sem aviso nenhum – no próximo segundo.

A vida é frágil! 

Não sabemos como conduzi-la, não sabemos como cuidá-la, não sabemos como aproveitá-la melhor – e pelo amor de Deus, não entendam que aproveitar a vida seja tornar-se um aproveitador do esforço e do trabalho alheio. Sejamos seres humanos autossustentáveis.

Vivemos para a felicidade. Porém, há que se entender que felicidade é gostar do que se tem, gostar do momento presente. Não há felicidade possível no futuro, porque o futuro não existe. O futuro, e a grande verdade diária que se nos impõe é que o mundo, para qualquer um de nós, pode acabar no momento seguinte. Hoje.

31 maio 2012

PIZZA



Que tal uma PIZZA ?

Música minha para o poema "O que se perde" - nova parceria com o poeta Fábio Rocha. Conheça mais em:

http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/o-que-se-perde/